TMG: 16 anos

TMG: 16 anos

No próximo dia 25 de abril o Teatro Municipal da Guarda comemora 16 anos de atividade ininterrupta. São 16 anos de um equipamento cultural que abanou a cidade e a região. Alguém imagina a Guarda hoje sem a existência do TMG? Não acredito. O que acredito é que, enquanto cidadão, regozijo-me por existir há 16 anos uma infraestrutura tão nobre dedicada ao serviço público, à cultura, à educação e às artes. Em primeiro lugar, devemos recordar que o TMG é uma obra arquitetónica singular, da autoria do arquiteto Carlos Veloso, alvo de vários prémios de arquitetura. Há uns anos, um site internacional de arquitetura selecionou o TMG como sendo um dos 30 melhores teatros mais bem desenhados arquitetonicamente e com melhor acústica (Grande Auditório). A obra é composta por dois edifícios em forma de cubo, ambos com uma simetria própria e uma decoração minimalista e austera, ligados por um túnel de acesso entre o parque de estacionamento e a bilheteira (Edifício Polifónico), construído há quase dois anos.

Quando abriu e mesmo durante algum tempo, houve resistências à adesão deste teatro, pela inovação arquitetónica. O próprio pensador Eduardo Lourenço chamou-lhe “Ovni”. Em boa verdade, o TMG foi (ou continua a ser) um ovni. Mas esta classificação deve ser entendida em sentido positivo e original, no sentido de ser um objeto espacial diferenciador, aparentemente descontextualizado do seu entorno urbanístico, surpreendente, mas cheio de potencialidades e características importantes para a cidade da Guarda. Na realidade, este ovni acaba sempre por seduzir e impressionar quem o visita.

E a verdade é que o TMG tem sido um ovni de pura ação cultural incessante ao longo dos anos, um ovni que provoca surpresa e inquietação. Em 16 anos como espetador regular, assisti a incontáveis bons espetáculos e projetos artísticos. Diria mesmo, centenas. Espetáculos verdadeiramente empolgantes, arrebatadores, que conseguiram fazer saltar da cadeira até o público mais contido. São esses espetáculos, de música, teatro ou dança, que enriquecem a experiência estética do espetador e que ficam registados para memória futura. Assisti a outros que me deixaram indiferentes, aqueles espetáculos que consideramos meramente medianos mas que não têm o condão de nos agitar, de nos fazer refletir ou de reagir. Depois, em muito menor quantidade, vi alguns espetáculos que foram uma desilusão, aqueles espetáculos que não comunicavam com o público, excessivamente concetuais, que não cativaram pelo arrojo estético, previsíveis. Mas felizmente foram muito poucos.

Quando me sento na cadeira do grande auditório, do pequeno auditório ou do café concerto, fico sempre à espera de ser sobressaltado pela manifestação artística que vou ver e ouvir, seja de música, teatro, dança, novo circo, cruzamentos disciplinares ou até de cinema. Confesso que já me emocionei várias vezes ao ponto de ficar com lágrimas ao canto do olho com a sensibilidade imagética de uma música, com a interpretação pujante de um ator, ou com a beleza visual de um bailado. Gosto de sentir essa fruição imensa que emana da arte, este prazer inexplicável que vem do espírito humano mais genuíno. Por outro lado, sinto também muitas vezes da parte de quem produz essa arte, ou seja, os criadores e os intérpretes, um grande prazer em transmitir o seu trabalho, de comunicar a sua visão do mundo e da vida. E em última instância, de receber as palmas do público como forma de agradecimento. Sim, porque qualquer espetáculo, por inerência, contém sempre elementos de interpretação da vida e da visão do mundo.

A arte interpela a vida, a vida imita a arte e vice-versa. E por isso o TMG ao longo destes 16 anos de incessante e intensa atividade (só interrompida pela pandemia) tem servido de autêntico farol no contributo para uma melhor e mais qualificada cidadania, para uma cidade mais dinâmica e participada por todos. A cultura que tem emanado daqueles dois blocos já fez mexer muitas mentalidades, já ajudou a criar fortes hábitos culturais em muita gente (jovens sobretudo), e contribuiu para enriquecer uma cidade que se quer sofisticada e atrativa – sobretudo agora que a Guarda é candidata a Capital Europeia da Cultura 2027.

Há, hoje, jovens que frequentam regularmente o TMG e que eram crianças quando abriu em 2005. Mas habituaram-se a frequentar o TMG com a escola ou com os pais e os hábitos culturais ficaram. Há até jovens que seguiram os estudos superiores de teatro e cinema por influência do TMG. E haveria tanto para dizer da relação das crianças com o teatro, da capacidade transformadora que o teatro consegue ter junto das crianças, do sonho e da imaginação que nelas consegue incutir. Em suma, o Teatro Municipal da Guarda deve e tem de ser um teatro para todos, aberto à experimentação constante e capaz de seduzir múltiplos públicos com propostas e atividades diversificadas. Porque um teatro municipal sem os públicos não faz sentido.

Longa vida, TMG!

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