O interior definha e os sinos dobram!

O interior definha e os sinos dobram!

Quando o INE publicou os resultados preliminares dos censos de 2021 a primeira frase que veio à cabeça foi: “O Interior definha e os sinos dobram!” e, acreditem, apesar de já estar à espera, a alegoria tem plena aplicação à situação calamitosa e dramática em que nos encontramos e para a qual há muito tempo venho alertando.

Os números que se seguem não enganam!

 

O que estes números nos mostram é que, como já era previsível, estamos há décadas, continuada e aceleradamente, a perder população e isso é mau, muito mau. Mas, o pior é que, ao mesmo tempo, o Interior está envelhecido, abandonado, com desemprego elevado e em perda de actividade económica e de emprego e num, talvez irreversível, processo de definhamento. Podemos estar perante um processo de não retorno, como bem alertou o Professor Fernandes de Matos, da UBI.

Como se não fosse suficiente, somos agora confrontados com o pedido de insolvência das Confecções Dielmar em Alcains, fazendo perigar o emprego de mais de 300 trabalhadoras e trabalhadores.

O governo deve procurar uma solução que assegure a continuidade desta importante unidade fabril e dos seus postos de trabalho. Se o não fizer o Interior sofrerá uma machadada terrível no seu já débil tecido económico e produtivo, num quadro em que não há alternativas de emprego.

A Dielmar mostra que as medidas do governo para o Interior são escassas e efémeras, põe em evidência que a realidade não é cor-de-rosa como o governo a procura pintar e também não é cor de laranja como uma certa oposição a pinta, tornando mais claro que são erradas as políticas seguidas, neste país assimétrico e injusto, pelos partidos do centrão dos interesses e dos negócios. A Dielmar está para o Interior como a TAP, Groundforce e a Efacec, entre outras, estão para o País. Por isso, exige-se tratamento igual e o mesmo respeito para quem vive e trabalha no Interior, porque O INTERIOR TAMBÉM É PORTUGAL!

Sejamos claros e directos!

Não vale a pena tapar o sol com uma peneira ou andar com mais panaceias e falsas soluções, desfasados das necessidades da maioria da população do Interior.

Apresentar o teletrabalho como se este fosse a solução para os problemas de emprego e para atrair e fixar pessoas no Interior do país e dizer que a solução está na imigração intensiva, são panaceias que nada resolvem. É que: i) O teletrabalho, salvo excepções, é um método de trabalho conjuntural que não substitui o trabalho em equipa e presencial; E a imigração é, também ela, conjuntural e sazonal, já que sem salários dignos, sem trabalho com direitos e sem condições de vida, os imigrantes estarão no Interior como passagem para outros destinos no Litoral e para outros países mais desenvolvidos da Europa. Já aconteceu antes e, se não se alterarem as condições, vai voltar a acontecer.

A solução, mais uma vez afirmo, passa por novas políticas de fixação e atracção de empresas, de realização de investimentos públicos para potenciar o investimento privado, de valorização do trabalho e dos trabalhadores com uma justa distribuição da riqueza, de melhoria da resposta dos serviços públicos e de abolição das Portagens.

É necessário agir rápido porque os defensores do menos Estado para as populações já aí estão ávidos de, com o PRR, exigir Mais Estado para as grandes empresas. Claro que, face a uma situação tão grave, a economia tem de ser apoiada. No entanto, não se pode tratar de forma igual o que é desigual e não é legitimo e moral dar a quem sempre acumulou lucros ao longo dos anos, deixando para trás os micro, pequenos e médios empresários. O dinheiro não é infinito e tem de ser gerido com rigor, com critérios e com justiça.

E sim! É necessário avançar decididamente e sem reservas para a Regionalização do País com a criação das regiões administrativas. De forma definitiva e perentória, defendo, convictamente, a criação da região da Beira Interior que integra os distritos de Castelo Branco e da Guarda e, eventualmente concelhos que com eles confinem. Os dados dos sensos assim o dizem. Juntar o Interior ao Litoral seria como “chover no molhado”.

E sim!  É urgente a criação de uma plataforma democrática, diversificada, abrangente, proponente e mobilizadora de todos os que intervêm e defendem os valores da democracia e querem o desenvolvimento económico, social, cultural e ambiental do Interior para promover a coesão territorial do país, assente na mobilização das populações.

 

*Dirigente sindical

 

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