Fogos de artificio sem som: uma forma empática de celebrar

Fogos de artificio sem som: uma forma empática de celebrar

Estamos no início do verão e esperam-se vários momentos de celebração marcados por fogos de artifício. E, apesar destes serem sinónimo de festa e de alegria, também representam riscos. A alegria que eles representam não é compartilhada por todos.

O uso de fogo de artifício já é tema de discussão há algum tempo, em especial porque já existem alternativas, as quais são utilizadas por um número cada vez mais crescente de cidades, mantendo o espetáculo visual retirando o ruído prejudicial (muitas vezes substituído por música).

Apesar do uso de fogos de artifício ser uma prática tradicionalmente usada nas celebrações, é já conhecido o impacto negativo que os fogos de artifício tradicionais podem ter em pessoas com autismo, grávidas e crianças pequenas, refugiados de guerra, pessoas idosas e pessoas com determinadas enfermidades. Afetando também os animais domésticos e silvestres.

Em relação às pessoas com autismo, a hipersensibilidade a sons faz com que ruídos e barulhos sejam superdimensionados, causando muitas vezes crises comportamentais mais graves, como agressões e autoagressões, para além do choro e desestabilizarão emocional-comportamental.

Em refugiados, o fogo de artifício tradicional pode afetar psicologicamente. As pessoas que vêm de zonas de guerra podem associar o ruído das explosões a tiros e a bombardeamentos e ser afetado de forma traumática.

Também nas mulheres grávidas a exposição materna a ruídos, incluindo as explosões provenientes de fogo de artifício, pode ser perigosa para o feto humano. Os efeitos a longo prazo no bebé podem incluir danos no ouvido interno.  Os especialistas ressalvam que as crianças podem ter perdas auditivas quando submetidas a barulhos muito altos. Para além disso, os ruídos podem assustar os bebés e as crianças.

Também as pessoas idosas ou com determinadas enfermidades podem ser severamente afetadas e agravar o seu estado de saúde. Na verdade, o fogo de artifício pode ter consequências graves para a saúde humana. Não só pelo ruído, mais também por causarem uma elevada poluição atmosférica num curto período de tempo, deixando partículas de metal, toxinas perigosas, produtos químicos nocivos e fumo a pairar no ar. Algumas destas toxinas nunca chegam a decompor-se completamente, permanecendo no ambiente. As principais consequências para a saúde humana, decorrentes da proliferação destas partículas, principalmente as finas são as doenças respiratórias e cardiovasculares.

Os danos causados pelo barulho das explosões atingem também os animais. Os animais silvestres mais afetados são, sobretudo, os pássaros.  Com as explosões repentinas, os bandos de pássaros que estão a dormir, têm uma reação instintiva de fuga que, combinada com a falta de visibilidade noturna, causa a morte de muitas aves decorrente do choque com as estruturas urbanas, durante o voo.

Em relação aos animais de companhia, todos os anos existem relatos do desaparecimento de vários animais de estimação após o lançamento de fogo de artifício. Muitos animais, sobretudo cães, fogem apavorados e acabam perdidos ou atropelados. Outros, na ânsia da fuga, terminam enforcados nas correntes que os prendem. Alguns têm convulsões, ataques epiléticos, tremores, surdez ou ataques cardíacos. Os cães são muito afetados, por terem uma audição muito mais apurada que a do ser humano, fazendo com que o som dos estrondos seja percecionado de uma forma muito mais intensa. O barulho, associado ao medo, desencadeia respostas fisiológicas de stress, por meio de ativação do sistema neuroendócrino, que resultam numa resposta de luta ou fuga. No Reino Unido, foi lançada uma petição que conta com mais de 500 mil assinaturas, na sequência da morte de Molly, uma cadela de apenas 18 meses que, segundo a sua tutora, terá morrido com um ataque cardíaco após os fortes estrondos do rebentamento dos fogos-de-artifício, motivando à discussão deste documento no Parlamento.

Existem fogos-de-artifício sem estrondos e sem barulho e têm vindo a ser experimentados em várias cidades do mundo. Em Portugal, temos o exemplo de Olhão, que, em Dezembro, aprovou por unanimidade a recomendação de transitar para fogos-de-artifício silenciosos. E, mais recentemente, o exemplo de Loulé, que segue os mesmos passos para a realização desta transição, recomendada pelo grupo municipal do PAN. Um número crescente de cidades passaram a utilizar nas suas celebrações, fogos de artifício silenciosos combinando este espetáculo com música de fundo e projeções audiovisuais, preservando o espetáculo de cor e eliminando o tão prejudicial ruído.

Para além da poluição sonora, a poluição atmosférica pode ficar significativamente reduzida com esta transição para fogos de artificio silenciosos. Isto porque os fogos de artifício tradicionais utilizam bombas que explodem com elementos químicos depois de arremessados no ar, que são altamente poluentes.  Alternativamente, os fogos de baixa emissão de som queimam de forma mais gradual, com uma explosão significativamente inferior, reduzindo a poluição atmosférica e permitindo a observação de um degradé de cores no céu e um espectro de cores maior.

Faz sentido apostar em alternativas que satisfazem o espírito festivo sem os impactos negativos, respeitando o bem-estar de todos: bebés, crianças mais sensíveis, autistas, refugiados, grávidas, idosos, doentes, animais e ambiente. Para além disso, o estabelecimento de locais de lançamento de fogo de artifício deve acautelar o bem-estar de pessoas e animais, longe de parques, abrigos e canis para animais, bem como de hospitais ou outras instituições onde se encontrem pessoas mais vulneráveis.

É importante repensar a utilização de fogos-de-artifício. Se há riscos na utilização de artefactos pirotécnicos nas festas e celebrações, nomeadamente no ambiente, nas pessoas mais vulneráveis e nos animais, torna-se fundamental a preferencial utilização de formas mais ecológicas de celebração e sem poluição sonora e ambiental, eliminando o uso de segmentos de fogos de artifício mais ruidosos, visando a redução do limite máximo de decibéis utilizados. Festejar, sim! Mas sem prejudicar. Importa transitar para festas que representam diversão e alegria para todos.

 

*Carolina Almeida

Porta-voz da Comissão Política do Pessoas-Animais-Natureza de Viseu

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *