Música

Tape Junk com Frankie Chavez: “Banjos, guitarras e … Confetis!”

A cultura no pós-pandemia. Tape Junk apresentam-se, agora, em formato duo, com João Correia na voz e Frankie Chavez na guitarra.

Tape Junk com Frankie Chavez: “Banjos, guitarras e … Confetis!”

Tape Junk abriram espaço para um novo som na música portuguesa. Um projeto que engloba várias musicalidades, nasceu entre amigos, com João Correia nas rédias.

Vocalista de “Julie & The Carjackers” e baterista em vários projetos independentes como “Bruno Pernadas” e “Walter Benjamin”, João Correia subiu ainda a palco ao lado de outros artistas, como Jorge Palma. Sem demoras, o músico decidiu ir ao baú … e sacar vários temas que ele próprio compunha e produzia.

Frankie Chavez, Nuno Lucas e António Dias foram chamados à receção e surgiram os “Tape Junk“, em 2013. O resultado está à vista, com três bonitos álbuns editados e cheios de energia.

“The Good and The Mean” nasceu no mesmo ano, explorando as veias do rock puro, que mais tarde se consumaram no álbum homónimo -“Tape Junk”, lançado em 2015.

O registo mais recente, deu-se com “Couch Pop” que vai para além das expetativas. Trazendo a sonoridade do folk e blues, os “Tape Junk” fugiram do tradicional e exploraram novas misturas, que conjugadas com a participação de António Vasconcelos Dias nos sintetizadores, resultaram melodias limpas e bem trabalhadas pelos músicos.

Agora, os “Tape Junk” apresentam-se em duo, com João Correia na voz e Frankie Chavez na guitarra. Descontraídos e bem dispostos, os dois amigos aqueceram-nos a noite do passado sábado no “Verão no Centro Histórico,” na Covilhã.

O VivaSerra! esteve lá, e ficou à conversa com esta dupla que se complementa não só em cima do palco, como fora.

Os Tape Junk são uma mistura de projetos, amigos e, várias sonoridades… Como começou tudo isto?

João: Explicaste muito bem, na verdade! Começou em 2013. Eu, na altura, tocava com Bruno Pernadas  no “Julie and The Carkackers,” era para aí que eu escrevia canções. Entretanto, comecei a escrever algum tipo de canções que não já se enquadravam muito bem com a música que estávamos a fazer com “Julie” e, à experiência… gravou-se o primeiro disco (“The Good and The Mean”). Eu e o António Vasconcelos Dias fomos experimentando as abordagens que nos ocorriam, o Frankie participou ainda em duas canções do disco e, a partir daí, temos tocado sempre juntos.

João, sei que estás não só nos “Tape Junk”, tocas e compões para outros projetos e atuas ao lado de vários artistas, como concilias toda esta família?

João: O que eu faço aqui hoje é como se fosse o meu hobbie, o meu trabalho é tocar bateria. Tocar bateria foi o que estudei, foi onde me foquei mais e onde trabalhei mais. É aquilo em que me sinto mais à vontade fazer, tocar as canções e servir as canções… Felizmente só toco com artistas que gosto e que admiro, é uma sorte! (um deles é o Frankie). A escrita das canções é uma coisa que eu, de certa forma, preciso de fazer e tenho vontade.

… E surgiu, mais tarde, esta necessidade de começares um projeto teu… de teres algo tão próprio, como os “Tape Junk”?

João: Sim, sempre tive a cena de escrever canções, desde muito puto. A certa altura quando começas a tocar com muitos artistas, dentro do seio da música, começas a pensar “ok também quero fazer a minha cena”, quero escrever canções, mas quero tocá-las ao vivo e com pessoas de quem gosto.

E Frankie, como te juntaste ao João? De onde surgiu este duo?

Frankie: Ele tocava comigo no meu projeto como baterista, já tocávamos em duo há uns dois anos. Entretanto, ele começou a escrever as canções, eu comecei a ouvir e a curtir. Ele convidou-me para gravar dois temas nos estúdios do Valentim de Carvalho e eu acabei por conhecer as músicas mais aí. A partir disso, tive a felicidade de ele me ter convidado, de eu ter entrado na banda e de participar nos concertos ao vivo.

Entrevista a João Correia e Frankie Chavez

A vossa sonoridade complementa-se por ela própria?

Frankie: Temos uma linguagem que se complementa bem, já nos conhecemos como pessoas e como músicos. Eu já sei para onde é que ele vai, ele sabe para onde é que eu vou… Já sabemos o que é que um e outro vão fazendo.

… Qual é o mais responsável de vocês os dois?

Frankie: É ele (João)

Construíram este caminho juntos, mas também seguem rumos em separado… Frankie tocas a solo, correto?

Frankie: Eu quando comecei a tocar, o meu projeto era a solo. Apesar de já ter tido uma outra banda com o João antes (mas era uma banda de bares e tínhamos poucos originais). Mas, depois, quando lancei o meu primeiro EP, é que comecei definitivamente a tocar a solo. Depois desse projeto, comecei a tocar ao vivo e chamei o Joca (João Correia) para ele complementar. A partir daí, o som dos” Tape Junk” ficou estabelecido, começámos a tocar em duo e eu ia fazendo, de vez em quando, uns gigs a solo.

João: Toquei agora quando rebentou a pandemia, dei uns quantos concertos a solo online e já não fazia isso há imenso tempo!

“The Good and The Mean”, canção do álbum de mesmo nome, lançado em 2013

Caminho esse que deu origem a três álbuns de originais já editados. Há todo um mix de feelings na vossa música. Lançaram-se em 2013, com o primeiro álbum –The Good and The Mean”, começaram pelo Rock tradicional, mas esse registo foi mudando ao longo do tempo.

João: Sim, começou mais pela base do hard rock country. Era um disco muito focado nas letras e também vinha na cena dos “Julie and The Carjackers”, que tinha montes de arranjos e montes de exótica lá no meio. Eu para me distanciar um bocadinho desse universo, porque Julie existia paralelamente aos “Tape Junk”, tentei fazer uma cena em que as letras estivessem um bocado à frente e a parte instrumental fosse muito minimal, quase como se fosse um acompanhamento para a melodia e para a letra.

Dois anos depois surgiu o “Tape Junk, disco homónimo editado em 2015, onde já se nota uma pequena diferença, mais solidez. Foi a partir daí que os “Tape Junk” se afirmaram enquanto banda?

João: Sim, só começámos a tocar ao vivo a partir do primeiro disco. Foi aí que se formou a banda.

Frankie: Éramos nós os quatro. Depois o Benjamin produziu o disco e ele, a partir, daí começou a tocar connosco.

Porém o “Couch Pop” (2019) já explora (tal como o nome indica), o Pop, mas também se nota um toque do Folk e dos Blues. Digamos que saíram da caixa e exploraram outro lado. Porquê o salto ?

João: O disco é um laboratório de experiências e de maquetes. Eu esse gravei-o sozinho na garagem, tive a ajuda do António Vasconcelos Dias que é o baterista e, curiosamente, ajudou nos sintetizadores. É um disco diferente, cheio de arranjos e de experiências fora do baralho. Como gravei o disco sozinho ia-me fartando dos arranjos iniciais e aquilo ia estando sempre em constante mudança. É um disco que não é de todo focado nas letras, ao contrário do primeiro disco.

“Cranberry and Thyme” single de apresentação do álbum – “Couch Pop”, editado em 2019

… E quais são as influências por trás do vosso trabalho e da produção artística?

(RISOS)

Frankie: Isso é com ele

João: Influências há as boas e as más. Há sempre alguns artistas que admiro muito, como compositores. A base toda da música destes três discos de Tape Junk agora é muito da música norte-americana. Havia muitas coisas que eu ouvia na altura de singer song writters, o Paul Simon é um dos meu heróis, o Paul McCartney é outro, também o Harry Nilsson. Há montes de compositores que eu adoro e me fazem de ir parar àquele universo. No último disco, por exemplo, fartei-me de ouvir Harry Nillsson.

Há planos para um futuro disco?

João: Há-de haver, logo se vê. Primeiro não costumamos pensar muito em conjunto, cada um tem a sua cena e lá nos vamos juntando. O próximo, não sei se vamos todos em live-take, ou se gravamos ao vivo, não sei se volto a gravar na garagem… Tenho que pensar.

Frankie: Uma das coisas que é curioso de salientar, é que… O primeiro disco, o Joca escreve-o sozinho. O segundo, também escreveu as canções sozinho, mas gravámo-lo todos juntos em fita, a tocar tudo ao mesmo tempo, e este terceiro, ele compôs e gravou tudo sozinho! Acho que são pontos vivos de ver como o João aborda a produção e a escrita de canções, a maneira como nós entramos ou não. Isso é fixe. Eu também tento fazer isso um bocadinho, é a maneira de um artista não se cansar do método e explorar outras maneiras de fazer música.

E por falar em cansar… Falemos um pouco da pandemia, como se mantiveram ocupados durante o confinamento?

Frankie: Tenho quatro filhos, portanto mantive-me ocupado a domá-los! (RISOS) e a tentar tocar quando conseguia, fazer desporto… Não pude ir ao surf durante imenso tempo, portanto andava muito de bicicleta. A nível musical também fiz meia dúzia de concertos online, mas confesso que perdi um bocado a pica com isto tudo. Porém, um dia não são dias, meses não são meses e 6 meses não são para sempre.  

Como se volta a produzir essa “pica”?

Frankie: Agora há-de voltar não sei… Entretanto, gravei outro disco de “Miramar” que é outro projeto que eu tenho. Agora é ver o que o futuro nos traz.

Canção de João Correia, lançada no mês de abril durante o confinamento.

Aproveitaram para renovar a vossa biblioteca musical, explorar outros sons?

Frankie: Tenho ouvido muito Tommy Guerrero.

João: Eu ouvi muito Bill Callahan, tentei ainda fazer muitas experiências… gravar muita coisa, mas passei por uma fase em que não conseguia ouvir música, não estava a conseguir fazer nada, nem ouvir.

Frankie: Era o que me acontecia, fiquei sem vontade!

Sentiram-se desmotivados?

Frankei: Um bocadinho.

O “Couch Pop” saiu em 2019, sentem que a pandemia teve algum reflexo neste processo de lançamento? Tinham alguns concertos marcados?

João: No ano passado fizemos alguns concertos porreiros do “Couch Pop” , o “Bons-Sons”, por exemplo, o “Vilar de Mouros”. Agora para este ano, confesso que estava focado noutras coisas. Em ver o que este (Frankie) fazia de novo para irmos gravar. Estivemos, ainda, a gravar o novo disco do Bruno Pernadas e do Benjamin, portanto, estava mais focado em outros artistas e com o que tinha de tocar, com o que viria de novo. Também não estávamos a marcar nada, alguma coisa que marcássemos, eu já tinha pré-definido que iríamos fazer em duo, como estamos a fazer agora. 

Como é voltar agora aos palcos e sentir de novo o calor do público?

Frankie: Este vai ser o meu primeiro. O único calor que eu senti foi no dia dos meus anos, fiz um gig só para sentir que estava a tocar para alguém em vez de tocar para as paredes. Foi fixe, senti um calorzinho mas depois disso…

João: Eu tive três concertos de televisão, e concertos online, mas já estive com o Pernadas, no São Luiz. Estive ainda com o Jorge Palma, na semana passada, mas é…. estranho! Também todos os que fiz, foi na bateria o que é completamente diferente. Hoje, estou um bocado em pânico (RISOS)

E essa sensação de estranheza, o que notam de diferente no público do pós-pandemia?

Frankie: Menos caras… Não vês a expressão das pessoas, é um bocado estranho. As interações são estranhas, há vezes em que o pessoal pede ao público para cantar e o público está longe. É esquisito e é complicado! Também para o público que está um concerto inteiro de máscara, mas é de valor.

João: Exato, quem está lá e quem vai assistir, é incrível! Ficamos muito felizes.

E de que forma é que iniciativas como esta (“Verão no Centro Histórico”) têm impacto na retoma da atividade cultural?

Frankie: Para mim tem todo o impacto. Acho que isto pode ser a salvação… pelo menos, por agora, dos músicos, da cultura e da animação! Não falo apenas em os artistas tocarem, mas também para as pessoas terem alguma coisa para se distrair e para sair à rua. Acho que mais do que nunca é importante!

Concerto Tape Junk com Frankie Chavez. João Correia (esquerda) e Frankie Chavez (direita)

O público do interior é um pouquinho diferente daquilo a que estão acostumados em Lisboa e no Porto, por exemplo?

Frankie: Eu gosto mais, na verdade. Em Lisboa está tudo muito disperso, ou tens a sorte de fazeres um concerto tipo no Trindade, isto foi com o meu projeto e foi muito fixe! porque foi uma coisa anunciada e as pessoas aderiram imenso, era apresentação do disco. Tocas mais, mas tens mais projetos e bandas. Acho que o público aqui está mais focado, parece-me.

João: Para mim é difícil ter essa perceção porque a maior parte dos concertos é com outra malta. O concerto ou corre bem ou corre mal, o público é fixe ou não é fixe. Mau público é não respeitarem o que estás a fazer, mas eu não tenho uma ideia definida à cerca disso.

Antes de terminarmos terei de fazer um pequeno apontamento. Quando vos ouvi pela primeira vez, tive a noção de um pequeno toque de western na vossa sonoridade. Vocês são uma mistura de vários sons e registos muitos peculiares que conseguem transformá-los em algo de muito próprio, vosso. Como definem os “Tape Junk”?

Frankie: Este último álbum tem mais de pop que os outros, mas tem as bases bem assentes de uma cena do rock puro. Este disco tem uma série de influências bem fixes, tem pop, rock e a base dos músicos que o João sempre seguiu como os “Pavement”, mas de uma forma muito mais cuidada e trabalhada.

João: É um processo de produção, hoje vamos tocar as canções com outros arranjos, uma cena mais em estilo de duo, algo que dá para fazer para nós os dois. Eu vejo mais o projeto como singer song writter, em que um álbum pode ser de rock e cheio de energia e outro álbum pode ser, simplesmente, de guitarra e de voz…

E o que podemos esperar dos Tape Junk esta noite?

João: Felizmente vamos explorar um pouco de tudo o que temos. Vamos tocar músicas dos três discos, com arranjos preparados para o formato em duo, completamente novos. Tocamos uma música de “Julie and The Carjackers” e uma versão de Mariana Ricardo, com quem eu toco nos “They are Heading West” e depois, banjos e guitarras e….

Frankie: E Confetis!

(RISOS)

Concerto Tape Junk com Frankie Chavez

Uma noite agradavél onde revisitámos todo o trabalho do grupo, agora trabalhado para a voz de João Correia e para as mãos de Frankie Chavez. Divertidos e serenos, a pandemia pode ter retrocedido o processo de criação, mas a solidão quebrou-se com a presença dos dois amigos em palco.

Do “Couch Pop” aos primórdios da banda, revisitámos todo o percurso dos Tape Junk na música nacional. Ainda que sem os suspeitos do costume, João e Frankie Chavez têm vindo a surpreender o panorama da música nacional e tornaram o concerto do passado sábado, numa noite memorável.

O “Verão no Centro Histórico” continua no próximo sábado com Renato Folgado e Margarida Geraldes, no palco do largo do Calvário. A música e a cultura nacional, bem como a local, têm-se tornado na aposta principal da iniciativa covilhanense.

Programação "Verão no Centro Histórico"
Programação “Verão no Centro Histórico”

Sara Rodrigues