Entrevista

Pedro Figueiredo: Escultor do “anjo da guarda”

Fez o secundário em saúde, mas cedo percebeu que era nas Artes Plásticas a sua vocação, Pedro Figueiredo natural da Guarda conversou com o Viva Serra sobre a sua cidade do coração e a arte nas suas diferentes formas.

Pedro Figueiredo: Escultor do “anjo da guarda”

A arte é a única maneira verdadeira de ser/estar mais livre. Eu posso fazer um cavalo na escultura com 3 patas e na natureza, na vida real é abatido. A arte permite que eu possa fazer um cavalo com 2 patas ou até sem nenhuma, a arte tem uma liberdade total – as Artes Plásticas- daí aquela grande dúvida se Arquitetura é arte. A arquitetura nunca pode estar englobada dentro das artes plásticas porque tem regras. Eu não posso fazer uma porta onde ninguém passe, mas a Escultura permite-me fazer isso até posso fazer a negação, por exemplo o trabalho do artista plástico Pedro Cabrita Reis é um trabalho de negação. Constrói umas escadas e depois põe pregos com o bico virado para cima. É uma escada que ninguém pode subir, ou seja é uma forma que depois é a negação dessa própria forma.

Fale-me um pouco sobre o seu percurso, sempre quis ser escultor?

Numa fase inicial tirei o curso, na altura, de saúde. Mas depois quando nós pensamos mais com a nossa cabeça e menos com a cabeça dos outros, quis voltar para trás.
Voltei para o 10ºano, tirei um curso profissional de cerâmica, em Coimbra. Durante esses três anos comecei a entrar no mundo das artes, eu já desenhava muito, quer dizer não foi assim do zero. Eu fazia uma vida paralela só que normalmente o que acontece nas pessoas muito novas? Os pais desviam-nos, sempre, do mundo das artes, é normal acho que todos os pais fazem isso. Até há um filme – o clube dos poetas mortos – que fala muito nisso. Entretanto quando estava a tirar o curso de cerâmica fui tendo professores de pintura, escultura e percebi por que é que a minha escolha foi a escultura e não pintura. A escultura é mais completa é a forma. Enquanto a pintura trata, apenas, do bidimensional, não estuda a forma, a escultura estuda esses processos todos. 
Acredito que seja tudo muito mais completo, quando estudamos a forma que é um mundo fascinante e, por quê? Porque interrompe o espaço vazio. O que eu quero dizer com isto é que num sítio onde não houve nada, nós vamos colocar ali uma forma e à partida a ideia é valorizar esse espaço. Esse espaço passa a ser uma outra coisa e se tirarmos dali essa escultura esse espaço morre. Embora ele tenha vivido sempre sem essa forma depois já não consegue viver sem ela. 
Vejamos o seguinte vivemos muitos anos com uma pessoa que não conhecemos de lado nenhum, depois conhecemos essa pessoa e se a perdermos é quase como se não pudéssemos viver sem ela, é um bocadinho isso. A escultura tem essa parte física, enquanto a pintura está na parede, normalmente. 

E a parte emocional? 

Está, sempre, ligada às duas áreas. O emocional  tem que ver com os sentidos, portanto, nós só podemos apreciar uma obra de arte se tivermos os sentidos todos apurados. 
Quando faço uma escultura faço-a com um propósito, mas não quer dizer que o público consiga entender o que estava dentro de mim. 
O que interessa, sempre, é que seja uma forma verdadeira e que o meu trabalho seja verdade. Isso é o mais importante. 
Agora, o que os outros vão sentir não é assim tão importante como isso, porque as pessoas vão para o mundo que quiserem. Devem deixar-se levar, o público não deve fazer um raciocínio muito grande sobre o que está a ver. 
Há a típica frase “eu não vou a um museu porque não percebo nada de arte”, eu dou muitas vezes este exemplo, eu posso gostar muito de uma música cantada em alemão, mas não perceber uma palavra do que é dito, mas a própria música e a forma como é cantada, encanta-me. Eu não tenho de saber alemão para gostar de uma música cantada em alemão. Na arte passasse, exatamente, a mesma coisa eu não tenho de saber o que se passa na cabeça do artista para gostar ou não gostar (faz parte) da obra. 
Não é bom que todos gostem das obras, a arte, também, deve ser polémica. Se todos gostarem é comercial e a arte serve para tirar as pessoas do sítio, para as inquietar, não para as manter iguais.  
Por exemplo no caso da beleza, esta é apenas um convencimento. Quantas vezes já vimos fotografias antigas e dizíamos “como pude vestir isto?” e naquela altura estávamos convencidos que estávamos bem como, agora, estaremos com esta t-shirt e estas calças e daqui a 10 anos digo “olha as calças que trazia naquele dia”. As coisas mudam um bocadinho, aliás somos nós que mudamos em relação às coisas, à visão que temos das coisas. Porque os lugares não mudam, este espaço é sempre o mesmo. Se formos a um sítio em crianças a visão que temos é diferente da de adulto, porque não foram os lugares que mudaram fomos nós. Isto é interessante em arte. 

Todos somos humanos e temos mais ou menos as mesmas características, mas nós só apreciamos uma arte se tivermos todos os sentidos apurados e a palavra estética vem de estesia que quer dizer que são os sentidos todos apurados. Quando somos operados, o que queremos fazer? Ter uma anestesia para não ter sentidos. A anestesia é a ausência de sentidos. Ninguém que esteja anestesiado aprecia uma obra de arte.  Quando dizemos aquele fulano não tem sensibilidade nenhuma, é disto que estamos a falar. A sensibilidade daquilo pode não entrar em nós, mas entrar no outro. 

As suas peças apesar de figurativas afastam-se da representação do real, como explica essa criação? 

Para mim o corpo humano é sempre um pretexto para fazer escultura. Vou usar o pretexto de um mergulhador, por exemplo, vou fazer aquela peça dentro da minha linguagem. Foi o que falamos há pouco, em relação à roupa há muitas calças, mas sabemos identificar de que marca são. E isso acontece nas obras, conseguimos ver de quem é a assinatura de cada autor, porque percebemos a linguagem. 

Aquilo é um começo e depois imaginamos de uma outra maneira, dar ao mundo um outro modo. 

Havia quem dissesse que a pintura era uma janela aberta e a escultura acaba por ser igual é ver sempre coisas diferentes todos os dias na mesma peça, isso pode acontecer, como por exemplo, aqueles filmes que nós achamos que têm grande qualidade. Vemos o filme 4 ou 5 vezes e nunca nos fartamos porque vemos sempre coisas diferentes, não são diretos nem imediatos e a escultura quando não é demasiadamente figurativa, cópia da realidade, ela não é tão imediata. Faz-nos pensar, viajar e o importante é isso. É, também, importante que a obra seja aberta que se consiga discutir que crie inquietação e discórdia nas pessoas. Não ser demasiado comercial, evidente porque depois esgota-se, o que acontece com as coisas comerciais? São espetaculares numa fase inicial, mas depois morrem e em pouco tempo. 

Quando cria em que é que se inspira? 

Nada que tenha que ver com a vida real, onde eu vou buscar as coisas é mesmo no interior. A vida real é no sentido físico e da realidade tema da própria peça, mas depois o caminho é outra coisa, não tem nada que ver com a vida conhecida. 

A arte não representa o visível, traz o visível, ou seja, traz-nos uma coisa ainda desconhecida que passa a ser conhecida a partir do momento em que aparece como feita porque para fazer coisas que já existem, mais vale estar quieto. A arte não é uma habilidade como muitos pensam, porque habilidoso há muitos, a arte tem de ser muito mais do que uma habilidade porque nós não estamos a ver se ele consegue desenhar bem ou mal, isso é numa fase académica, depois a arte é muito mais do que isso. As pessoas pensam se ele faz as coisas muito realistas, e eu faço os bustos, é porque ele é muito habilidoso e muito bom, isto é quase o contrário, mas é muito difícil as pessoas perceberem isto. 

Quando as coisas estão muito próximas do real só “presta” no exercício académico, porque a arte é uma fuga à realidade apesar de tocar nas pessoas, por isso é que é liberdade porque temos muitas saídas. 

Existe algum processo que acontece quando o Pedro pensa em criar algo? 

Um processo é um caminho. Nós quando fazemos um desenho, temos uma ideia de como vamos fazer, mas nunca ouviu aquela expressão o material tem sempre razão? há medida que se vai construindo uma peça é o material que nos vai dizer, nós não mandamos no material, é ele que manda em nós, quase como a famosa frase de José Régio “não sei para onde vou, sei que não vou por aí” e aquilo indica, mais ou menos, a mesma coisa que é nós ao fazer a escultura temos o desenho, mas depois aquilo, a dada altura, fica esquecido porque depois vai-nos dando pistas para um outro lado e quando comparamos o desenho com o produto final, já não tem nada que ver. Claro que se aproxima do processo inicial, não fica completamente de fora daquilo que se tinha desenhado, mas já não é a mesma coisa. 

Ao criar há várias fases no seu estado emocional? 

Há sobretudo uma luta, há sempre um sofrimento. Quando se parte para um trabalho, parte-se sempre com um certo receio. Acho que se tiver 80 anos e, ainda, fizer escultura vai-me acontecer isso. Só que a partir daí, há esse sofrimento, mas tentamos encontrar aquilo que não sabemos muito bem o que será. Numa parte final, há o esvaziamento que é já estamos a pensar noutro. E é assim um trabalho fala connosco ou não fala e devemos terminar porque não há um fim anunciado numa obra de arte. 

Apesar da escultura estar pronta nunca se fecha? 

Não, ela está fechada porque está assinada, mas eu estou a dizer ainda assim quando estava a trabalhar, continuar a trabalhar nela, mas nós é que temos de ter a sensibilidade para perceber que não vale a pena continuar porque está terminada. 

Um desenho, quando está terminado? Nunca se sabe, é quando o assinar, mas a pessoa que está ao lado podia dizer “para mim isto não está acabado”. As coisas não são fechadas em si mesmo porque há uma subjetividade muito grande nas obras de arte. É sempre subjetivo nunca é algo exato como a matemática. 

A arte é uma fuga à ciência. 

Existe alguma peça que o tenha marcado mais?

Há várias, mas uma que marca sempre é o anjo da guarda, aqui na cidade, porque tem que ver com um projeto que já tinha na cabeça há muito tempo e por outro lado, diz-me muito porque foi a cidade onde nasci e tem que ver com o nome da cidade, é o anjo da guarda e todas as pessoas que nasceram na Guarda podem dizer isso mais alto. 

O anjo da guarda, supostamente aparece no nosso nascimento, o meu filho foi em Coimbra, mas o meu é mesmo da Guarda, achei piada a essa conotação como por exemplo aquela peça que está no parque da cidade, também, é uma ideia ligada à cidade – é a Guarda no Coração, guarda no Coração a Guarda. É o nome da cidade com o verbo guardar. 

Tenho uma dificuldade em responder a essa pergunta porque isso é o mesmo que perguntar “Qual é o filho que gosto mais?”, ninguém pode dizer que há um que gosta do que o outro. Contudo tem que ver com etapas, os trabalhos ligam-nos a certos períodos da vida. 

Numa altura como esta como é que se sobrevive com arte?  

Não dei conta do Covid porque trabalho sempre sozinho. Nas artes plásticas não notamos a diferença porque não trabalhamos diretamente com o público, agora cinema, teatro e música que trabalham diretamente com o público foi complicado. 

Agora se durasse sempre seria mau, porque depois nem as galerias e museus abririam, mas num período para trabalhar não nos afetou, a nós, artistas plásticos. 

 Em Portugal a arte é posta um bocadinho de lado porque, imaginemos, numa esplanada a probabilidade de estarem a falar de desporto é de 80%, de arte é 5%, logo aí a arte fica a perder porque é menos imediato. As artes têm o seu espaço, tem um público reduzido de pessoas quando a Mariana disse que todos gostam de arte, há pessoas que passam e lhes é indiferente. 

O que é pior para um artista? Não é falarem mal da obra é passarem e não dizerem nada. Eu tive um professor de pintura, o João Dixo que dizia “falem da obra nem que seja bem”, ele dava a entender que se falassem mal é que era bom e, em Portugal, há muita gente que passa e nem fala. As pessoas preocupam-se mais com o futebol. Ninguém está preocupado com as artes, aí sim é onde está o problema. 

Qual acredita que seria a forma de mudar esse chip?

É na idade. Eu vou a Madrid e percebo porque é que a probabilidade de falarem em arte é igual à de futebol. Em Madrid, no prado (museu) vemos crianças com a idade do meu filho sentados a levarem injeções de arte. É assim que se começa, tem de ser de baixo. Não se começa a gostar de arte aos 60, 70 anos, pode haver meia dúzia de pessoas, mas é difícil. Porque é uma questão de educação, não tem que ver com mais nada. Não podemos estar zangados com isso, mas podemos mudar as coisas. Acredito que Portugal esteja a trabalhar para isso. Eu não me queixo muito até acho que os artistas passam a vida a queixar-se, não estou a criticar, mas é importante sermos unidos. 
Os artistas não precisam de inimigos, falam mal dos próprios artistas, há-de vir o dia em que um médico fale mal de outro. 
Há a ordem dos advogados, nunca vai existir a ordem dos escultores, isso tenho a certeza a absoluta. Os maiores inimigos que tenho são os meus colegas e tenho muitos exemplos disso. Não é o público em geral, quando os artistas falam mal dos próprios artistas nas redes sociais algo vai mal. 
Em público já ouviram um médico falar mal de outro? Nunca viram, nem nunca vão ver, portanto os artistas não se queixem quando são eles próprios a falar mal. 

O que é que o Pedro de agora diria ao Pedro com 10 anos?

(risos) sei lá, era diferente. Eu gostei da minha infância, aqui, na Guarda. Fui criado aqui e gostei de viver aqui e revisitar. Só não gosto do frio, gostava que o meu filho gostasse da Guarda e se habituasse à cidade. O que é que eu digo? Não diria grande coisa. Acho que há um tempo para tudo, eu gosto das pessoas e da cidade e não passo muito tempo sem vir cá. 
Os melhores amigos da minha vida estão aqui, os outros são conhecidos. 
O meu pai não aceitou muito bem a ideia de voltar atrás na escola, mas eu não me arrependo porque aprendi outras coisas. Tive noutra área e, hoje, é importante. A matemática foi importante para entender melhor a geometria que é fundamental na escultura. Sem a geometria não se pode fazer escultura e as pessoas não entendem isso. A geometria é de tal maneira abstrata, às vezes muito mais abstrata do que a própria matemática, as pessoas julgam que não serve para nada e aquilo é fundamental para perceber/encontrar a forma. 
Isto não é evidente nas obras, como é o caso de um cozinhado, as pessoas não detetam, mas sabem que há lá ingredientes ocultos. As obras de arte são cozinhados, o termo “a pitada de sal”, não é pesada é sensível. Quando colocamos sal na comida, normalmente, não se pesa, pomos a mão no sal e depois na comida e ela não fica nem insosso nem salgada, é uma sensibilidade que temos na mão que serve para aquele prato. Acontece o mesmo numa obra de arte, tem de se ter essa sensibilidade para aquilo tocar nas pessoas. É evidente que muitas vezes não se consegue, mas o erro faz parte do ser humano. É bom errar para se poder aprender muito. É fundamental errar. Na arte tudo o que está mal, está bem. Agora na arte tem de se estar em harmonia umas coisas com as outras. Se tudo o que está mal, estiver em harmonia, tudo nos vai parecer bem. A torre de pizza direita já não seria a torre de pizza. 
A forma só é importante porque há volta dela não existe nada, há um espaço vazio. Só há música, porque entre a música há silêncio. Se não houvesse silêncio, não haveria música. É um contraste. 
Uma pessoa a andar, o espaço vazio é um triângulo (nas pernas, entre uma e outra). Só existe triangulo porque há ali duas linhas, isso é que é escultura. 

Apenas uma curiosidade, vivi na Rua João de Ruão, a única rua com um nome de um escultor na cidade da Guarda. 

Redação Viva Serra

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