O abençoado verão infernal de Covilhã

15 de Julho de 2020

Por Giovanni Ramos

Prepare-se, pois aqui na Covilhã são nove meses de inverno e três meses de inferno. Lembro até hoje desta frase que ouvi no meu primeiro inverno nas montanhas. Um covilhanense alertava-me para o verão daqui, algo capaz de assustar até mesmo um brasileiro. E de facto, foi assustador, mesmo. O primeiro verão meu na Covilhã foi o de 2017, que começou bem mais cedo e foi marcado pelos incêndios.

Todos que me conhecem sabem da minha admiração pelo inverno. Não refiro-me ao inverno rigoroso do Norte da Europa e sim esse inverno português bem mais leve, porém possível de nomeá-lo assim. No Brasil, somente em algumas cidades serranas temos um inverno de facto. Admirar o frio daqui e reclamar do verão faz parte do meu repertório, encontrei até uma música para isso.

FOTO: Giovanni Ramos

Quando as temperaturas começavam a subir, só pensava em duas coisas: fugir para uma praia ou para cidades mais amenas. O calor excessivo fazia eu contar as horas e o dinheiro para viajar, sempre no destino o oceano ou os ventos mais frios.

Eis que 2020 veio para bagunçar tudo. Os ventos do inverno trouxeram a pandemia do coronavírus e praticamente dois meses sem sair de casa. O medo de entrar em aeroportos e a situação complicada em Lisboa faz com que evite viajar até mesmo depois do desconfinamento. O cenário é outro: a brisa que surge, de vez em quando, à noite na cidade torna locais como o Jardim Público altamente confortável e recomendável.

As praias fluviais já estão cheias, é verdade, mas nada compara-se com aquele mundaréu de gente das praias oceânicas. É possível procurar na nossa região e refrescar-se em locais calmos, tranquilos. Diferente de como foi no começo do ano, podemos ficar nas ruas, em noids muito agradáveis.

Sempre fui um admirador da Covilhã no outono, inverno e, às vezes, na primavera. Graças ao coronavírus, este calor infernal do verão tornou-se abençoado. Nunca imaginei que torceria para o verão chegar logo.