Hip Hop nas dicas de fim de semana

O VivArte faz-lhe companhia durante os dias quentes de Verão. Veja o que ler, ver e ouvir este fim de semana, de 28 a 30 de agosto.

27 de Agosto de 2020
Hip Hop nas dicas de fim de semana

Este fim de semana vamos para um registo diferente. Géneros como o “Hip Hop”, “Rap” e “R&B”, têm vindo a despertar a curiosidade por todo o mundo. Dependentes da lírica bem produzida e fundamentada, estes três vínculos da música contemporânea representam uma forma alternativa de expressão.

São vistos, por muitos, como a forma revolucionária das classes, uma filosofia subjacente a um seio cultural oprimido, que encontrou na música a sua forma de escape. A popularidade cresceu e com ela, surgiram artistas e músicos emblemáticos deste género musical, reis da “rua” que se fizeram fiéis às suas palavras. Quem já não se lembra de TuPac? ou a história de 50 Cent?

O hip hop surgiu na década de 70, como movimento cultural entre os latino-americanos, os jamaicanos e os afro-americanos da cidade de Nova York, mais precisamente no sul do Bronx.

Com uma sublutura muito própria, Afrikaa Bambaataa ficou reconhecido como o magnata do movimento e estabeleceu os quatro pilares essenciais deste sub-género hip hop: o Rap, o DJling, o Breakdance e o Graffiti.

Acompanhado de batidas ritmícas e sequencias rápidas dos DJ’s, aliou-se ao Rap (abreviatura de “rhythm and poetry” em inglês), com a técnica vocal para se fazer acompanhar dos loops melódicos produzidos.

A pintura e a dança, surgiram como complemento nas áreas onde vários grupos se juntavam e produziam. Para além de todas estas vertentes, também a moda foi um exemplo que seguiu as linhas artísticas do Hip Hop e definiu-o como um estilo personlizado com um impacto social, que se estende aos dias de hoje.

De impacto social histórico, as raízes do Hip Hop continuam a aliciar gerações. Contudo, à sua volta foi construído um estigma de deliquência. Poucos são aqueles que se debruçam sobre este registo musical e o analisam como forma de arte.

Assim sendo, hoje trago-lhe sugestões que pretendem desconstruir esse preconceito. Ora vejamos:

VER: “8 Mile”, de Curtis Hanson (2002)

Escuro e ambicioso, “8 Mile” é um filme de limites e ambições. Não é à toa que se fala no percurso de Eminem na história do “Rap“. Agora, Marshall Bruce Mathers interpreta o papel de Rabbit, cujo o nome verdadeiro é Jimmy Smith Jr. Um adolescente problemático, vitima dos preconceitos da sociedade, “Rabbit” vive com o talento de improvisar letras, o escape para deixar a marginalidade das ruas. Contudo, o percurso não é fácil.

Deslocado do seu meio, “Rabbit” é um total “outsider” para a vizinhança afro-americana que o rodeia. Num enredo aliciante e dramático, “8 Mile” desenvolve-se em torno da luta de Jimmy (Eminem) para alcançar o sonho através da música, e ultrapassar os obstáculos que se atravessam no caminho.

Problemas familiares, emprego sem futuro e a violência de um mundo liderado por negros, deixam Jimmy na decadência. Apesar de Eminem negar que “8 Mile” é um retrato da sua história, o filme deixa espaço para dúvidas. Se estiver atento, o “alter-ego” de Slim Shaddy (cognome de Eminem) parece ser a referência para o artista representar um papel tão próximo de si.

O filme foi realizado por Curtis Hanson que entra na jogada de não ser uma história autobiográfica, mas isso deixamos ao seu critério. Amado pelo público adolescente e escurraçado pela crítica especializada, Eminem conseguiu captar os holofotes e conquistar o público da sétima arte, o que fez surgir tema clássico do artista – “Lose Yourself”, que lhe valeu um Óscar da Academia para “Melhor Canção Original”, graças ao filme “8 Mile”.

“8 Mile” Trailer Oficial

LER: “Hip Hop Genealogia”, de Ed Piskor (2016).

Para além do cinema e das rádios, a história do Hip Hop conquistou a literatura e subiu ao topo dos best-seller do “The New York Times”, com a obra “Hip Hop Genealogia”. O livro de banda desenhada de Ed Piskor inspirou a famosa série da Netflix – “The Get Down”, e arrecadou vários prémios de renome, entre eles o Eisner Awards.

De narrativa certeira e fluída, a história remonta para os bairros falidos de Bronx, onde nasceram os primeiros passos de uma cultura que se tornou num êxito global. Uma perspetiva histórica e interessante, de toque documental sobre o começo da cultura do Hip Hop nos anos 70 e do ressurgimento de um novo género musical, no seio de tantos outros registos que se afirmaram na altura, como punk e o rock.

De leitura fácil, “Hip Hop Genealogia” delicía qualquer tarde de sábado e abre-lhe portas para um mundo diferente, com uma história de uma subcultura paralela e revolucionária, na história da música.

“Hip Hop Genealogia” de Ed Piskor

OUVIR: Kendrick Lamar – “DAMN”

De batidas minimalistas, Kendrick Lamar revelou-se um artista incontornável da atualidade. Rapper e compositor norte-americano, a música de Kendrick não se deixa pela base da simplicidade, não! Líricas pesadas, repletas de convições e contradições, Lamar tem sido um verdadeiro must no Hip Hop norte-americano. Facto que lhe valeu um Pulitzer, com o álbum “DAMN”, lançado em 2018.

Se está a pensar que o álbum se fica pela mera escrita e produção de canções, desengane-se. Parte de todo um conceito muito mais complexo, uma história. Kendrick fala-nos na primeira pessoa e liga-nos ao que quer mostrar. Existe toda uma filosofia por trás das suas canções que nos alicía a querer passar para a próxima faixa.

DAMN” é um exemplo disso mesmo. Uma sequência dos pés à cabeça, com destaque para a canção – “HUMBLE”, um trabalho pesado e atemporal considerado uma das melhores canções já produzidas pelo artista. O conjunto de 14 músicas, completam-se a si mesmas e são uma verdadeira representação da vida afro-americana moderna, complementadas pelo dinamismo rítmico do artista.

Álbum “DAMN” de Kendrick Lamar

Kendrick Lamar venveu o Prémio Pulitzer em 2018, com o disco “DAMN”. Tornando-se, assim, o primeiro rapper norte americano galardoado com um dos mais prestigiados prémios na área da composição musical. Para além do Pulitzer, “DAMN” valeu-lhe o Grammy de Melhor álbum do ano em 2018.