É urgente inventar alegria

25 de Agosto de 2020

Por João Botão dos Santos

Os rostos estão cobertos, fechados, os sorrisos escondidos perante cores, padrões e até publicidades. Os movimentos retraídos e ciosos do passado. Os olhares transportam um misto de preocupação e perseverança, mas uma certeza inquestionável de que esta pandemia ainda nos assolará por algum tempo.

O contacto interpessoal mudou, o medo absorveu muitas das formas de contacto e o “bicho” imiscuiu-se no nosso dia-a-dia instituindo uma procrastinação aguda e exacerbada. Surge então, mais do que nunca, a importância de seguir as palavras que Eugénio de Andrade imortalizou. “É urgente destruir certas palavras- ódio, solidão e crueldade”, escreveu, certo dia, o nosso poeta Beirão.

E a verdade é que solidão será talvez a palavra que mais se enraizou no quotidiano de todos nós, principalmente daqueles que mais sofrem, em silêncio, com a profundidade desta realidade que paulatinamente nos faz reinventar as relações interpessoais.

E é então que urge dar aso à criatividade e “inventar a alegria”, “multiplicar (ainda que metaforicamente) os beijos”, (re)inventar o amor. Numa época tão difícil como esta é importante louvar e parabenizar o trabalho que tem vindo a ser produzido pela Santa Casa da Misericórdia de Belmonte junto dos nossos ancianos, aqueles que mais sofrem com esta nova realidade e que se vêm privados das pessoas mais importantes da sua vida.

Esta instituição tem provado que é possível juntar a criatividade ao próprio bem-estar dos idosos que, longe dos familiares, necessitam de fugir ao marasmo que a solidão pode vincar na mente de cada um deles. Não é, para os belmontenses, de estranhar as repercussões que a última iniciativa desta coletividade colheu junto dos meios de comunicação regionais, mas principalmente dos média nacionais com a recriação, com os seus utentes em pano de fundo, de capas de álbuns icónicos da música portuguesa.

Estes ecos nacionais podem não estranhar, mas fazem jus ao trabalho desenvolvido e são um aliciante para esta constante e necessária reinvenção diária de todos os profissionais que vivem de perto a vivência destas pessoas.

É urgente ultrapassar todos os muros e todos os fantasmas que nos assolam, só assim se conseguirá colocar o barco ao mar, só assim se estará bem no silêncio e no borborinho e só assim se conseguirá beber o alento, até de copos vazios.

É urgente viver o amor, é urgente permanecer, façamo-lo da mesma forma que a Santa Casa da Misericórdia de Belmonte – com audácia.