Opinião

Confinamento

Opinião de Luís Cipriano

Confinamento

Parece que vem aí mais um confinamento cujo maior perigo será a clausura intelectual. A eventualidade de cancelamento de atividades culturais proporciona esse mesmo bloqueio ao exercício mental e terá reflexos na vida das pessoas a médio e a longo prazo. Continuo sem perceber os critérios que nos colocam novamente em prisão domiciliária pelo simples facto de também não os ter percebido anteriormente, sendo as exceções o que faz oscilar a minha perceção de tudo isto.

Não pude fazer concertos para trinta pessoas, mas houve festas políticas e manifestações com milhares delas. Talvez o vírus seja como eu e não vá muito “à bola” com política e, portanto, o risco de contágio era ínfimo. Por outro lado, também deverá querer ser culto pois deve frequentar concertos e daí terem sido proibidos. Outra coisa que estranho tem a ver com a minha profissão de professor e, que a ter entendido bem, as escolas não vão fechar porque são locais de minguada ameaça, isto até segundo o Presidente da República.

Claro que quando se fala do pouco perigo fala-se dos alunos pois os professores e auxiliares pouco importam, política esta que já tem anos e foi e é transversal a todos os partidos a partir do momento que se aperceberam que os pais são peões que dão votos desde que estejam contentes. Foi assim que surgiu a nova hierarquia de sistema educativo: alunos, pais e depois professores e auxiliares. Somos nós, hoje, os que sustentamos a economia pois se as crianças vão para casa os seus progenitores têm de tomar igual direção, no entanto não somos prioritários a nível de vacinação. Como docente chateia-me esta coisa indecente. Como maestro também terei de cancelar ensaios que por questões de segurança tenho feito com doze pessoas de cada vez, mas depois como professor poderei ter aulas com vinte alunos dentro de uma sala mais pequena que a sala de ensaios. Venha mais cerveja para tentar entender isto.

O problema maior nem tem a ver com o cancelamento de atividades culturais, mas sim o impedimento de as preparar para quando elas forem possíveis estarmos aptos. Os decisores deste país reagem à tempestade sem nos deixarem preparar para a bonança.

Existe também a preocupação de não se poder festejar o Carnaval embora neste caso não me chateia pelo facto de vivermos num país onde ele é praticado quase todos os dias. Mas, no caso de quem for obrigado a ficar em casa, sempre pode exercitar o cérebro e ouvir algumas obras que decerto lhes dá conforto à alma caso tenham tempo para isso. Oiçam a Sinfonia nº1 de Malher, a 5ª sinfonia de Shostakovich o concerto nº3 para Piano e Orquestra de Beethoven ou a 4ª Sinfonia de Brahms. Os professores, “carne para canhão” da sociedade portuguesa, quando ficarem infetados e enviados para casa também podem ouvir as mesmas obras.

Redação