Cultura

A “liberdade” ao domicílio deu direito a prémio em Proença-a-Nova

“Bibliomóvel” junta a cultura aos serviços de apoio social e teve o reconhecimento da Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas

A “liberdade” ao domicílio deu direito a prémio em Proença-a-Nova

A ideia não é nova, mas continua a fazer a diferença.

Em Proença-a-Nova há uma biblioteca móvel a circular pelo concelho há cerca de 15 anos mas que insiste em inovar. O espaço tornou-se um importante ponto de conexão e partilha, levando aos habitantes do concelho não apenas livros, mas sobretudo o acesso livre a tudo o que se possa tornar longínquo.

“A biblioteca não pode ser só a promoção do livro e da leitura, tem que ser uma casa de liberdade. Um sítio onde as pessoas possam ir, estar livremente, usar e abusar de tudo o que elas tenham, sejam livros, sejam revistas, seja internet”, explica Nuno Marçal, bibliotecário na biblioteca municipal da Proença-a-Nova e o principal responsável pela “Bibliomóvel”.

O espaço itinerante permite partilhar cultura mas está longe de se cingir a esse propósito. Atualmente permite também utilizar a internet, preencher requerimentos, pagar contas ou tirar dúvidas sobre o IRS, levando todos os serviços municipais onde estes possam ser inacessíveis. “Qualquer coisa que envolva um Multibanco… nós temos lá um ATM portátil e as pessoas podem pagar as contas“, diz Nuno Marçal.

Fotos: Nuno Marçal/opapalagui.blogspot.com

A versatilidade do serviço e sua relevância social foram reconhecidos pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), que elegeu a  Bibliomóvel – Biblioteca Itinerante de Proença-a-Nova como a vencedora da sexta edição do Prémio Boas Práticas em Bibliotecas Públicas Municipais 2019. Na avaliação da candidatura o júri considerou este projeto “diferenciador” e salientou que se destaca “pelo serviço «fora de portas», em zonas de baixa densidade populacional, com uma população envelhecida e pouco alfabetizada, disponibilizando outras valências (com uma forte componente social), para além dos serviços tradicionais de biblioteca”. A Bibliomóvel também estabelece parcerias com outras vertentes de serviços ambulantes como a Unidade Móvel de Saúde ou o Centro Ciência Viva da Floresta.

Foto: Nuno Marçal/opapalagui.blogspot.com

É este leque de valências sobre rodas que, segundo o bibliotecário, permitem fazer a diferença no quotidiano dos habitantes de localidades mais isoladas. “Ao longo destes 15 anos eu tive essa perceção: a de que há muitos dos nossos utilizadores que nem sequer sabem ler nem escrever, mas estão lá, à nossa espera, precisamente para fazer outras coisas”, explica Nuno Marçal que fez o registo da jornada no blog opapalagui.blogspot.com.

A Bibliomóvel de Proença-a-Nova irá agora receber um prémio de 4.500 € que, de acordo com o regulamento do concurso, apoiará a aquisição e o desenvolvimento de recursos que contribuam para a qualidade do serviço.

Fotos: Nuno Marçal /opapalagui.blogspot.com

Apesar de reconhecer que o interior é uma região desfavorecida face a outras no país, Nuno Marçal rejeita que esse fator possa condicionar o desenvolvimento. “A questão da realidade cultural no interior é um pouco como a realidade socioeconómica do interior: é uma zona de muitas sombras e o futuro não é assim muito risonho”. Apesar disso “cada um de nós tem a sua cota de responsabilidade” e baixar os braços não deve ser uma opção. “Eu, como bibliotecário – e bibliotecário numa tipologia muito especifica de biblioteca – tenho tentado sempre fazer o meu melhor e realmente fazer acontecer essa casas de liberdade que são as bibliotecas porque eu acredito mesmo que elas podem fazer a diferença”.

Neste caso, é seguro dizer que a missão ficou cumprida.

Sofia Craveiro

Redação