Opinião

A alma dos territórios

Opinião de Dulcineia Catarina Moura

A alma dos territórios

Em tudo na vida priorizo as emoções, por isso entendo que não são só as pessoas que têm alma. Também a têm as regiões, os lugares, as cidades, as aldeias. Essa alma que nos prende às sensações, que evoca as memórias e os momentos especiais. Uma alma que nos envolve e abraça, e nos faz mergulhar num universo de emoção que nos arrebata o coração.

Depois, em cada história e cada momento fruído, associamos as pessoas – aqueles e aquelas com quem partilhámos esse espaço físico, ou aqueles que por estarem no registo da nossa memória conseguimos senti-los e confessar o nosso amor num sussurro de silêncio. É o que sinto em relação a muitos lugares e, essencialmente, à minha cidade – a Guarda, e ao território que defendo e sinto intensamente, onde tantas vezes sou assaltada por tais emoções.

Em momentos tão controversos como os que se vivem, em que a inquietude dita a espuma dos dias, e que a nossa liberdade é confinada, creio que as emoções assumem um efeito efervescente e até algo controverso. Afinal, não sabemos porquanto irá durar! Por isso, é importante encontrar amparo nas recordações – nas boas –, nas que têm esse resultado balsâmico e apaziguador. E depois, que essa alma dos territórios nos garanta a esperança para planear uma visita, uma viagem, uma experiência que se há-de repetir, oxalá.

Não podemos, no entanto, esquivar-nos da realidade, face às ditas circunstâncias pandémicas. A quem assume a responsabilidade pelos desígnios territoriais, apela-se a que se tenha em conta um princípio basilar para a salvaguarda da economia, que consiste em definir uma estratégia sólida, complementar aos outros sectores de actividade, que respeite e valorize o potencial endógeno e a identidade de cada região. Abordar as coisas desta forma, não é raciocínio despesista. Entenda-se que todos os sectores da actividade económica são extremamente importantes para evitar o colapso e antecipar uma retoma que cada vez nos parece mais longínqua.

Findo um 2020 que se regista como o pior ano de que há memória ao nível da actividade turística mundial, entrámos em 2021 com a inocência de acreditar num cenário melhor. Passaram-se alguns dias, e já dá para antecipar que o trilho 2021 não será fácil, e se a ‘normalidade’ vier a ser reconquistada, sê-lo-á de forma paulatina. Por isso, definir uma estratégia, de forma antecipada e premente, para garantir que os nossos empresários, com reduções colossais na liquidez, com perdas superiores a 70% nos seus resultados; com o número de desempregados a aumentar de forma galopante e a impossibilidade de se reinventarem e regenerarem perante um estado que defina medidas mais flexíveis e não tão ávidas de impostos, é a única forma de evitar o abismo.

Não se pode deixar perder o potencial de atractividade de Portugal, não podemos condenar quem tem investido e quem tem abraçado a causa de qualificar a oferta do nosso país. Claramente, que o apoio público será imprescindível, a par da capacidade de resiliência de todo os envolvidos no sector, e duma responsabilidade individual e colectiva que garanta a segurança e a confiança do ponto de vista do consumidor.

Neste 2021 que ainda há poucos dias iniciou persiste a ausência de coesão territorial – tão evidente desde o nível local até ao próprio Ministério que lhe toma o nome –, nunca foi tão clara a necessidade de se concertarem esforços e sinergias, através de uma estratégia sólida que responda, por exemplo, às mudanças na indústria do turismo (veja-se a nova realidade  nas relações entre o Reino Unido e a União Europeia, com impacto no turismo, nas relações profissionais e nos estudos, por via do Brexit); às mudanças na própria economia de uma forma geral; às mudanças nas ligações aeroportuárias, de circulação e nos transportes; à articulação dos municípios com os agentes privados e, ao nível da região, uma estratégia que defina, claramente, o próprio papel da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, perspectivando esta como o motor da cooperação intermunicipal, integrador e participativo, com resultados mais ágeis que garantam a força reivindicativa e a escala para se desenvolverem soluções inteligentes e inovadoras de âmbito territorial, de forma harmonizada – de norte a sul ou de sul a norte.

Hoje e sempre, com alma até Almeida.

Redação